A Boca

Sobre tudo num nada.

Categoria: Lequinho

À caminho

by Lequinho Maniezo

Testo a água da piscina
pra ver-se à funda
pra ver se afunda

vou testando, testando
até não sobrar mais testa
revolto e tacanho
a funda tacando pedras
Golias que me perdoe
mas que piscina é essa?


Talvez eu não chegue a praia
talvez seja a minha sina
de vez o ferro na fresta

 

de uma vez
mergulho

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O Dia em que eu vi os olhos de Deus

by Lequinho Maniezo

Dois pontos e um começo de fato

Dois traços

Um inverso abstrato e uma intravenosa

Dois pontos culpados

Estáticos, dentes, pedra e um lago

Abóboda difusa de um si naufragado

 

No dia eu vi os olhos de Deus

Desesperados por ser um ser

Círculos escritos em fel

Sagrado sorriso de um canto

Um conto secreto de dez

A roda inspirada no céu

Ciranda de um sangue rosa

 

Os olhos do Deus gelado

Em febre posto, tremulo, coisa

Não ache significado

Nos olhos do deus composto

No poço do nem te conto

A tese de suas roupas

Alinha dos grupos todos

De um circo traçado em louça

Amais o que ser de um todo

O mais que te prende em força

As linhas que calam bocas

 

Desporto demaculado

Os olhos do Deus sagrado

Olham e lhe dizem coisas

E os olhos do Deus diabo

Suando e contando gotas

Ditou que foi afundado

O branco do faz de conta

Bem fundo no mar criado

Maré entre duas pontas

Vogais de um ponto paragrafo

Que é e será de novo

Espírito mal acuado

 

Posfácio

Nos quadros do Deus simpático

Sorriu o pó sem açúcar

Aposto de minha outra

Os chacras embaralhados

Não ache que foi interprete

O Deus que se abre em conchas

A curva de na lua encanta

Os olhos que apontam em volta

Na conta que viu crianças

Na emenda do mar salgado

ressignificar em pranchas

Os rostos de trás pra frente

Os desenhos de infância

A raiva, o não notar

Os dez segundos de ânsia

 

Os olhos do último Deus

Os três deuses do fio

Que conta que mede e trança

Maré entre ponto e virgula

As pontes de quem não anda

O deus da desesperança

Que morto, que nunca vivo

Possível que em si semanas

De um fardo de ultima instancia

Oriente que o sul não chama

A neblina escama, escama, escama

O sangue de mare rosa

Os olhos do Deus em chamas.

BOCS

by Lequinho Maniezo

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O vapor envolve banheiro. Lá fora a noite está em outro tempo verbal, pálida e distante. O homem se limpa com sabonete gasto que escapa das mãos. Não acordou firme hoje, não viveu bem. Tudo é poroso, aerado.

Mesmo assim não se engane, não é gripe. A moleza tem um outro gosto, como uma sensação doente, o peso de um banho em gravidade negativa. A água, para subir, não precisa de tamanha temperatura; basta um empurrão e tudo…

O couro cabeludo esta vermelho mesmo sem ninguém olhar, o basculante fechado sua e seu celular, preso entre a alavanca do da janela e a parede, emite um som incompreensível. Alguma música abafada pelo barulho do chuveiro, talvez o fundo do mar chamando. A água nunca antes vista, ainda que esteja lá, sufocada por um travesseiro de hospital, por uma palavra não dita antes da partida, o trem que, quase fechado, força a resistência. O chuveiro, o chuveiro a força

E então o formigamento na ponta dos dedos, marca da primeira coisa alheia. Todas as sensações que seu cérebro consegue computar são suas, obvio. Ou na verdade não. “Ah, mas não isso! ”. Na verdade, era como se um segundo corpo surgisse daqueles dedos, embaixo da unha, uma agonia que logo transmuta suave, confortável e elétrica, viajando em falange, pele e músculo. Os pés no piso antiaderente do box espirram água gelada no vidro ao seu lado. Ele coça, a força se torna um adversário, pequenas pedras. Machucam, o chuveiro a força. Sentindo gás em sua volta enquanto o mundo desperta, a si e a aquele outro, ele acorda. A água.

Formam-se extremos: os dedos superiores, insensíveis e totalmente confortáveis com sua situação, avançam em marcha lente pelos braços, a mira caindo ao dorso; O outro extremo é a realidade dos pés que tentam limpar algo não visível, raspando e raspando no chão cor de peixe. Esse animal recém fisgado luta, a água existe. Fria pelas paredes do Box ela age como o catalizador de um campo de sensações não quantificáveis. E ainda assim eram, como se a pele em força abrisse os braços, ampla, para sentir qualquer frio real.

Para cima e para baixo se atropelam, uma na nuca da outra sem pedir licença, mas, na mesma medida de grosseria, não criam nenhuma barbárie. Um projetil a frente, carne, enquanto seu corpo se persegue, sem entender quem era o pastor ou o discipulado.

Ao mesmo tempo fuga e tormenta, dualidades que enfrentam mãos e pés, como um próprio cavalo pantomímico. Então apita sua mente o apito dos cachorros e o corpo fecha em uma jaula elíptica, apagando as luzes, as estrelas lá de fora, a névoa ali dentro. Nevoa não, ou seria nevoa? Ele já não sabe, como nunca realmente soube, fingindo. Onde está?

É tarde, dia. A manhã precoce tem os porquês da nevoa, que assenta por sobre as arvores enquanto ele se lava para o trabalho. Não, noite, em casa, não tem trabalho, só faz… o que está fazendo? Faça o que mandam! O que mandava sua higiene displicente. Não, merda de chuva. Abaixo do chuveiro frio, toma banho em pulos enquanto sua mãe grita com seus filhos, os irmãos lá de fora. “ Me deixem em paz um minuto! ” Ela teve de gritar com sua outra voz, a mente.

Os olhos viram e ainda vem, rodando sem caixas: Um banheiro ínfimo e um cano. Ele mesmo era somente um cano, com pés cabeça de gente. Volta a si, põe a mão no vidro do box, os dedos espalhados com a música inaudível e o noturno sem sangue e sem cor[AM1] , os olhos enxergando um céu, um eu.

Existe calma no todo, seus órgãos internos e na sua circulação sanguínea invisível, vazando. Sua mãe e as crianças lá fora correm acima do vermelho, atrás dos peixes de terra, A mais novinha não anda nem fala, em uma cadeira de rodas improvisada que bate terra empedrada, sem encanamentos. É uma voz estridente a matriarca dos todos.

Espera! Seus relatórios chegaram, pense nos seus relatórios. Ao seu lado uma banheira quadrada com almofadas, é cristalina, sem arestas sujas ou pontas soltas. O banheiro tem toalhas quentes e frias, enquanto, nas paredes, painéis de led sensíveis ao toque lhe informavam a latência do wifi e os feeds de notícia que pode acessar do box via rádio, TV ou texto, visualizando com clareza na parede a sua frente. Mas ali dentro do peito somente a merda dos relatórios, realmente um ingrato esse, ainda que pense ter razão. Pressa, muita pressa!

Desculpe por julgar, talvez ele até a tenha…

(beat)

A elipse fecha e ele sente o peso da barriga pressionando as costas, a sensação da pele esticada e um inchaço que a existência é, seu próprio mundo remontado para virar outra coisa, para virar um mundo em si só. Seu chuveiro velho onde agua nem corre; nem você, nem ninguém. Pinga em sua cabeça uma ideia, mas é tão fraca que não a limpa. A mão encontra o plástico do box e segura o ponto onde encouraça o mal-estar. “Pelo menos de manicure estou bem”. Um olhar para as unhas brilhantes, compridas e limpas, a forma mais bela que conseguia imaginar queratina. Uma ideia dissipada em dedos carcomidos.

Seu mundo treme. Bombas pela manhã e daqui a pouco, de tarde. Uma poliniza o ar, aproveita os ventos do meio dia para que… para que algo não seja estéril antes da hora. A outra, de tarde, não sabe para que, mas não toma banho essas horas. Espuma cai dos cabelos curtos e ela tenta. O mais fundo que pode, até que o cheiro de amônia, tremulo, tome o corpo que a radiação move. Tão nova para receber tanta informação, coisas demais para alguém de somente 2 horas. Mas saiba, o incomodo dura para sempre, mesmo quando chegas lá pelos seus 10 dias (quem dera, com sorte).

Um momento. (beat). A elipse se tornar corda, o chuveiro afunda na parede, um apoio. O ar que puxa, queimando garganta e nariz, se torna o supressor da atmosfera. Não, mais, muito mais, só não queria esse inferno e… tudo. Por que não ser prático? Olhe e espere e olhe e espere e olhe, nunca fale nada e…espere

Não pense, a noite (ou o dia, será o dia mesmo? Onde estamos?) não queria mais pensar muito. E era impossível não o fazer, portanto a vida de mais, a morte demais, a selva de mais, cidade de mais, são água, onde seus 70% se sufocam. Ao passo que são nada, pouquíssimo, pouquíssimo e palavra em si já não cabe pois ele é vácuo, não tem mais controle e quer. Possui o controle de suas ações e prova, mesmo sem possuir habilidade para mostrar aos outros e a si mesmo. A fibra de nylon em volta de seu pescoço aperta e a cabeça, formigando nas têmporas, como duas mãos lhe colocando no colo, o lembra das roupas que nunca recolheu do varal. Esta corda em seu pomo de adão o engole, engole uma refeição por vez, destitui todas, passando aquela bola para cima e para baixo. Pensa na sorte de ser pequeno, e depois em mais nada. Resta aguardar o cérebro, que toma um segundo controle de consciência incessível e luta sem saber que perde, sem saber que quis.

Um chute forte contra o vidro verde, laminado e antisséptico daquele banheiro azul, todo ele.

“Água! Água, olha! Meu dono, banho, água, excelente, excelente! Mais água, quanta água! Eita, cadê ele? Espuma, espuma! Cadê? Eu ouvi um gato? Gato! Atrás daquela porta. Volta! Volta aqui, gato, gato! ” Não consegue pegar, está com a porta sanfonada em frente, um cordão apertado na barriga, pressionando o peito, uma destreza digna de um atleta, se não fosse tão comum quanto a água daquele balde gasto.

Não ouve, não vê, nem sabe de sua própria. Em constante movimento se junta, simplesmente, como se deve ir: para voltar. Também como é devido. Cai inconsciente, se debatendo, lutando contra ele sem saber com que proposito. Espirrou para todos os lados, se divide, multiplica, vibra e rebate no vidro. Se torna o resto, escoa pelo ralo, se mistura aos pelos, tornou-se e virou, caindo lá de cima, ao mesmo tempo, milhões de anos depois, após o fim de tudo, bem depois do começo.

“Respire fundo”, e puxou a nuca para baixo, a outra mão ainda apoiada no box; desliza cautelosamente na expectativa que o corpo se guie suficientemente bem até encontrar a parede atrás, quando cai de uma vez. Gotas.

Com a cabeça entre os joelhos vive dentro e fora de si várias vezes, na espera que o sangue volte. A água corre pelos cabelos e por isso lembra “eu preciso desligar essa porcaria”. Odiavam-se na mesma intensidade ou aquele pelo menos lhe odiava tanto quanto ele odiava a si mesmo? Depois do agora nunca obteve resposta. Pouco a pouco os vapores e a noite voltam e se mexer como o mundo ele se mexe: 24 horas por dia, 7 dias por semana, ou de qualquer outra forma em que se mede tempo.

As coisas pararam de vibrar e o apito se tornou outra vez música; ele já nem se sentia mais um cão e agora que o fluxo de água havia morrido, a única sensação que predominava era o frio que o vidro mantinha entre ele e os azulejos brancos. Alguém foi ali consertar a resistência três semanas depois. “Não tenho mesmo jeito com essas coisas”

Levantou e, ainda tonto, abriu a porta de correr do box; se enxugou de qualquer jeito, não pôs camiseta apesar do alerta contra resfriado em sua cabeça. Foi para a cozinha pegar algo de sal, que pôs na boca como um bicho.

Viveu até os 97 com problemas respiratórios. Tomava banho todos os dias e não teve mais nenhum mal-estar, nem significado a mais.

Osmarco e suas estrelas

by Lequinho Maniezo

 

Um dia meu pai acordou arrotando estrelas, mas achou que era somente congestão, dada a quantidade abusiva de miojo que havia comido na noite anterior. Todos os dias acordava em uma fatia horaria: entre as 5h as as 7h15 da manhã. Tomava seu café na cama, costumava esquenta-lo no micro-ondas abaixo do criado mudo de plástico. Vestia suas meias e ia tomar um banho, escovava os dentes sem pasta e depois chupava uma bala para melhorar seus ares enquanto ia chutando as roupas aqui e acola, para ver o que se revelava daquele chão de panos relativamente limpos. Algumas vezes pegava seu induto do bolo das sujas mesmo, ocasiões nas quais a sorte parecia não querer mostrar os dentes.

Naquele dia acordou as 6h, esquentou o café, mas não o tomou. Gastou o tempo que levava na bebida olhando para seu cômodo único com banheiro (seria suit uma casa de um quarto só?), sentindo o vento frio nos pelos do peito, seguindo o caminho de suas veias azuis que cortavam rugas e pintas, manchas grandes o suficiente para serem rios em um mapa em alto relevo; a qualquer pessoa com mais bom senso seria preocupante, mas o velho não fazia parte de tal seleta.

Quando pulou da cama sentiu uma porrada quente na barriga. Azia, gastrite, quebranto ou qualquer outra coisa que ecoasse em seus pensamentos. Entrou em contato com o frio daquele dia de manhã, encolhendo seu corpo inteiro como uma folha de papel do capítulo anterior,um manuscrito vagabundo redigido nas páginas não-recicláveis de um caderno velho. Tomou um banho, o mais quente que conseguiu sem desarmar a resistência, abrindo sua bala ali mesmo para ver se ela acalmava o interno. Escovou os dentes com ela ali no meio e saiu rumo a sua rotina. Quando achou suas roupas, atuou do jeitinho que eu me lembro, 20 anos de distância dos meus olhos: ajoelhou e orou.

Sua calvície estava perto do vergonhoso, os poucos fios de cabelo se juntando em grossos cabos elétricos que cruzavam da nuca até o topo da cabeça, deixando largas barras de pele amostra, onde o sol fazia proliferar mais pintas. Orava com as mãos espalmadas no colchão, joelho firme no piso e o queixo encostado no peito, fazendo aquela sua barba.

Nunca soube do que falava, se era decorado ele nunca tomou o tempo devido para ensinar-me direitinhos as palavras. Apesar disso, lembro bem dos murmúrios e poderia seguir uma partitura se escrita. As reações pareciam muito bem ensaiadas, um passo antes da queda. Fez tudo o que eu já conhecia, adicionando aqui e ali algum toque de artista formuláico, tentando disfarçar.

Levantou afinal, buscando alguma pepita perdida dentre as pedras que garimpou com os pés na saída do banho. Complementou as meias e as calças encontradas com uma de suas duas camisas brancas (não estava passada, ele fez questão de guardar na memória) e arrematou tudo com um paletó espinha de peixe cinza já-fui-mais-escuro. Pegou sua bíblia, segurando a capa de borracha tingida de marrom com cuidado para que a capa não escapasse totalmente da lombada, deixou o resto de café dentro do micro-ondas e foi mastigando um pão com manteiga até a rua. A porta da casa não era a saída imediata: um quintal de terra e grama do tipo peste inextinguível nascia ao redor de placas de cimento rachadas e tortas. Até chegar ao portão baixo de ferro enferrujado posto entre dois muros caiados meu pai já tinha terminado metade do pão; fico surpresa as vezes em pensar que ele nunca se engasgou sério por causa dessa mania. Direto ele comia feito um doido.

O ônibus, segundo consta. Passava ao lado de sua casa, em uma linha que eu, particularmente, não tomava conhecimento da existência. Ainda que usasse constante aquele veículo, as pessoas, sempre as mesmas naquele horário, não lhe reconheciam. Estavam sempre mais vazios naquelas horas, ainda que muita gente trabalhe ou estude esse horário. Esperou sozinho no ponto com sua bíblia na mão e foi o trajeto todo, até o terminal, de pé.

De um ponto ao outro ficou remoendo, sem fazer contato visual. Não quis mostrar nenhum resquício de sono ou falta de energia, tinha as passagens sagradas picotadas em sua cabeça, por tanto queria emanar vigor. Tinha ouvido sobre Lucas 15 em alguma rádio na madrugada há uns dias, na insônia, que foi, provavelmente, causada pela quantidade inconsequente de café da qual nunca desistiu, uma das poucas coisas a receber tal privilégio. Velho burro.

Enfim. Também pensou em Mateus 15, sem notar a coincidência numérica. Seria aquele um dia 15? Não, não mesmo.

A bem da verdade não possuía esse senso de humor totalmente rebuscado e inglês (hum), nem uma capacidade tão ampla de atribuir significado a aleatoriedades. Balbuciava, enquanto o ônibus fazia curvas, entrando e saindo de morros em uma cidade que não parece conhecer no estrito senso a palavra “plaino”, sua planta baixa de palavras e jargões. Quando se deu conta, perdido entre Apocalipse e Miqueias, já estava passando abaixo do viaduto, perto do Boulevard e da praça principal. Desceram todos.

Nesse momento era possível, em seu sistema nervoso e nos receptores de calor de seu corpo, perceber as mudanças atmosféricas e gravitacionais que aconteciam. Algo estava brotando dentro dele. As estrelas já não brilhavam tanto, apesar de seu fogo inda azul clarear as entranhas que a orbitavam. Estavam no vermelho.

Ele queimava, forçando a pose em sua repulsa ao desanimo. É fato que seria muito difícil sentir sono com o incomodo que vinha crescendo nele. A oração matinal havia trazido relativo refresco, entretanto tudo voltou tão logo…

Estava decidido, ia ser Mateus 15! Aquele fogo e as dores, eram quase lembranças. Podia ser remorso, mas papai em pura agonia, e alguma palavra que o quebrantava, lutando para sair. Respeito aos pais, dias pálidos e agressividade, acredito que o livro lhe apagasse os dois últimos.

Abriu a bíblia e foi se encaminhando ao meio da praça, aos mendigos cobriam as cabeças para afastar os pedaços de céu branco caindo em água fina que corta velhos cobertores. Lá na praça existem platôs circulares com contornos de tijolos azuis. Platôs de terra escura onde cresce mais dessa grama, apesar de a do centro ser mais bem cuidada; a luz de dentro deixava o mundo com mais sombras, tons terciários e tensos; reparou, as folhas balançavam para lá e para cá como se estivessem assentindo.

Ou negando, pai.

Leu uma passagem, as palavras desafinadas com o c0mpasso da mente, fazendo-o apertar os olhos conforme cada uma delas passava. Fazia como se aquilo fosse lhe ajudar a achar um sentido que perdeu entre o abrir e a ler. Sentiu dor na garganta, mas nada estranho com a voz em si. O calor no peito aumentava. “O que o senhor quer me dizer? ”

O que ele está me dizendo?

Mateus… Mateus. Percebeu que não falava de tradição, mas dos desgraçados e bem-aventurados no sofrimento. O incomodo da benção que tantas vezes sentira, tão incompreendido quanto o próprio peregrino, preso em um livro. Imitava em sua vida os passos do protagonista de Daniel. Nunca acabei aquele livro, mas o filme me assustava quando criança, principalmente as setas e o vale da morte.

O incomodo em meu pai caminhou pelo estomago, um frio tão intenso, apagava tudo, abrindo-lhe um sorriso, como uma revelação. Olhou para o céu e terminou a passagem. “Bem-aventurados! ” Papai abriu os braços e declamou as boas novas de olhos fechados. Quando olhou em volta, somente as folhas falavam: sim e não, sim e não.

E por conta disso me encontro debruçada sobre este livro de estanho, ouro e eletricidade. Suas páginas contem meu tipo de sangue, mas não o sangue que me corre, outro tipo do meu sangue. Os joelhos descritos dentro dele são os meus joelhos, mas não o mesmo tipo de joelho; os meus se dobram em negação àqueles.

A última vez que conversei com ele foi no natal. Recebi um sermão naquele dia, além das felicitações pelo nascimento de Cristo. Desde a adolescência fiquei boa em me esquivar de ambos, ainda que ele, com sua pseudo-passividade, fosse veemente. Veja, ele nunca me encostou a mão após os 10 anos. Algumas marcas duraram meses, mas era coisa de época, pelo menos assim me explicavam e, segundo alguns amigos meus, é isso que se perdeu. Existe, em cada uma dessas declarações, uma pontada de rancor misturado ao desejo de infligir sua própria experiência no outro.

O velho não conhecia nenhum amigo meu.

Sempre estive a espreita e nunca me importei em não me importar muito, contudo algo em meus braços e pernas me forçava a estar pelo menos ciente e, apesar do que posso ter dado a entender, não sou uma pessoa que tem dificuldade em se comunicar com idosos. Só com um, que não é dos mais legais. As pessoas do bairro são todas acima dos cinquenta, o que, automaticamente, fez abrir uma quitanda no final da rua e uma barbearia de algum senhor que esteve sempre ali, mas nunca deu as caras.

Chego aqui as 11, depois do principal fofoqueiro da rua ligar no ramal do escritório, já que o da sala foi propositalmente ignorado por mim. Ignorei sem motivo, só pela força contraria que me gerava a presunção de algo motriz ali. Ao telefone o vendedor de anéis avisa que não viu papai, informação quase escada para esticar um papo morto sobre me vender bijuterias de prata. Corto, ele volta ao raciocínio. Me avisa que faz alguns dias, que papai não tem saído para pregar, não foi na oração de terça à noite e nem mesmo aguou as plantas do jardim (o plural e seu terreno são ambos em um senso bem largo da palavra). Impressionante. Não só sumiço de papai, mas a sabedoria do velho, muito organizado, do tipo que mantem planilha e decora rotina. Para psicopata serviria muito bem, caso um dia precise de um.

Então cheguei, o velho me revela a mesma bagunça, o café no micro-ondas brotava grama naquela xicara envolta por luzes e objetos atômicos. As roupas jogadas no chão. Dei falta de sua bíblia, mas encontrei isto. Isto se provou ele, mas não como um diário. É ele, repensado, rearranjado, falando pelo sangue, como seu próprio cordeiro em seu diálogo mais claro.

Parei em sua comemoração por não entender as palavras a frente. Subiu ao ônibus de punhos fechados, vibrando. Desceu dele de mãos espalmadas e curvado, a alegria toda relocada, passando para outros corpos estocarem-na até mais tarde, quando fosse merecedor. A garganta gelada cheia de agulhas era uma única estrutura de dor, do ponto A ao B. Ao portão de casa percebeu a falta. Da porta olhou para o resto e ao cair de braços abertos na cama lembrou da palavra original, da tradição, dos mais velhos. Repensou sua jornada, as folhas, seu sorriso e sua raiva prazerosa, uma excitação da possibilidade representada em uma cartilagem na direita e a outra a esquerda.

Não sobrou dele nenhum retrato, comeram-lhe de dentro para fora, todas as estrelas. Sim, estrelas, que nos assombram como penduricalho etéreo para um mundo dormir feito bebe. Meu pai adorava estrelas. Naquele dia, acordou mal e em algum ponto do dia deitou no chão pedindo a Deus para que parassem; diz que sentia a pele de sua barriga ficando mais fina a o corpo todo formigando, ficando pesado e lento, quente e frio em um padrão rítmico, cantando alguma coisa para ele próprio, sem que tivesse as ferramentas adequadas para ouvir.

Estirou o corpo no chão, caindo de costas após escorrer da cama em um movimento cênico. As nebulosas começavam a se mexer, cada vez mais rápido, sugando tudo, tornando-o vácuo. Nessa hora papai foi desmembrado, célula por célula e então come e bebe em outras dimensões. O engolir de saliva passa por outro esôfago em algum outro plano, mesmo que a boca esteja aqui. No desespero suas glândulas tentam produzir lagrimas geladas espalhadas pelo chão, abraçadas por nossa atmosfera quente. Seu pulmão explodia e se reconstruía no universo, cheio de oxigênio, vazio de oxigênio, nascendo e morrendo sem possuir mãos que segurassem ou estigmatas.

Tentei começar a traduzir dentro de um contexto, como a prática de tradutora, mas não se entendia contexto. Simplesmente ele sumiu, a parte de dentro se tornou a de fora. Uma hora havia órgãos e sangue na sala. Depois só sangue, depois só pele, ossos, olhos, músculos, amontoados e desconstruídos sem o sopro de vida

Folheei com pressa, tentando acha-lo e o encontrei na esquina central, o começo do relato das estrelas. As partes sobre mim, sobre minha infância, estão aqui, , mas não são para mim. Tudo daquela época que me era de direito foi pago, menos um pedido de desculpas. Alguns escritos sobre mamãe também, mas que sinceramente, não valema pena. Metade é reclamação e outra metade é um amor… estranho, no mínimo. Não se sabe qual medida de equivalência existia entre sentimento e conveniência entre eles, sem contar acomodação. Verdade seja dita ela era um doce, mas torcia qualquer entranha como raízes de uma arvore velha.

Explosoes queimaram as fibras e terminações nervosas, pulando cada camada de seu corpo para uma dimensão, lhe setorizando em departamentos públicos espaciais especializados em analisar homens abaixo do medíocre.

O livro é graficamente interessante, parece um espelho. Eu me vejo, vejo ele, algo que nunca foi possível em nosso corriqueiro. Pego-o na mão e ele é leve. Aqui está meu pai, sequestrado, mas também presente como nunca realmente esteve quando o corpo andava pelo tapete da sala, aquele meu pai que não chegou a ir

No fundo eu gostaria que ele tivesse encontrado o Senhor, da mesma maneira que, nesta mesma profundeza, gostaria eu de encontrá-lo, ainda que não ache possível. Entretanto papai pergunta o que eu perguntei minha vida toda, fala em códigos e se descreve em códigos, em números. Sim, talvez agora eu entenda e, então, nem precisaria mais escrever isso, uma vez que vi o que devia. Mas escrevo, pelo menos motivo que meu pai foi escrito: para existir.

Não entendo como sumiu. Osmarco um dia acordou arrotando estrelas e um dia elas o arrotaram de volta, em sua própria forma. Do pó ao pó, ou do pó que o pó é feito, que seria um tipo diferente de pó, basicamente. Seria bom… derreter, virar um deserto aqui mesmo no quarto onde tantas coisas se encaixariam com essas letras ilegíveis que se tornam português em tradução de algum idioma. Como a areia eu entraria em todas as suas roupas e estragaria seu café; não posso, cada grão seu está impregnado em mim desde o primeiro, como um cafezal no saco de Pilão. Fecho-o de novo, quero que se cale, já falou demais.

Sou como as folhas que olhavam para ele. Ele sempre entendeu sim, mas eu sempre lhe disse não.


POSFÁCIO

Reconheceu na capa emborrachada o corte que tomava ¼ da lombada. A capa repousava nas mãos de um morador de rua que lia atentamente, sentado no platô e balançando os pés devido a sua estatura ananica. Seus olhos queimados de sol e bem apertados davam em Pietra uma acomodação mais confortável que a estrela daquela tarde. Sentiu-se bem pelo pai, mas ainda assim teve de chegar perto do homem e perguntar a ele o que dizia Matheus 15.

Ele leu, as mesmas palavras que ela já conhecia, mas agora conhecendo o próprio pai. Achou que era tarde, então se foi, sem as lágrimas que esperava que caísse, carregando no peito somente uma porta aberta, sem cena pós créditos.

Quem liga prum cão morto?

by Lequinho Maniezo

Respirando imundo inundou o colo de seu mundo

Um útero cujo o único impulso foi matar

E destruir foi a arma que me deste, o ar

A fantasia da mente, parestesia retorna

A mesma tristeza, as mesmas frases de outrora

Sou remetente, as mãos tremendo

Um pouco rápido, já disse o excedente, o diário

Dormente e com a euforia da felicidade pulsando

Escove os dentes, o subconsciente explodiu com a sugestão de parar

De deixar o vício e qual será o destinatário?

Um cachorro perdeu as patas no transito

Quem liga prum cão morto?

Esperto fosse não corria, tinha modos

Educação, decoro

Quem liga prum cão morto?

Passa por cima, regras morais e chatas

Como um exército marchando

Morre com coerência, perdeu o peito

Perdeu as omoplatas, “saiba o que quer! ”

“deixe-os em paz!”, sem sustentação pro pescoço

Morto de cabeça baixa, eu sabia que o trem vermelho

Me levaria pro caminho assombroso, inaudito.

Com os fones na orelha aquele cachorro não poderia ter ouvido

Que fui eu quem passou com o carro

Fui eu o abatido, sabotando as mesmas patas

Pelas quais nunca fui mantido, exorto

Que este doce e esta joia, pedra do imensurável

Terá pra sempre um nome, mesmo desencarnado

Mesmo não lapidada, mesmo na forma mais tosca

O trem passou, é passado, correu.

Flutuar é pros idiotas, o cachorro se jogou

Um camafeu de carne e osso, uma união de idiomas.

O copo está caindo.

by Lequinho Maniezo

O copo está caindo amor, vê

A luz batendo no vidro, a cor

Azul, flores numa coroa

De escopos contra a têmpora do

Morto, a testa suando, o jogo

Dum autorretrato eu jogo-o

 

Preste atenção neste terminal

O barulho que vem é um teste

Estamos surdos, resposta errada

Deste tudo, deste nada, correção

Mal falei já me arrependo, espere.

 

Reaprendi cá, recuperei-me

Até que, enfim, eu, na solidão

Errando o tom da fala, na sã

Consciência, é preciso ter

Consciência, perdi-a, calma!

 

O copo quebrou amor, repare

Não tente conserta-lo, não cole

“Não cole”… dissemos de pronto

Posto que prontos, dispares, me

dispare contra minha têmpora.

 

Trates pelo chão, o maior respeito

Pois espalharam-se totalmente

Pegue suas meias pelo quarto

Sua bolsa, coloque os sapatos

Não deixe, em vão pistas, não tente.

 

É a segunda vez, amanhã

Um demônio sai dos pedaços

Vou repetir o ato que fez

A vida, só imaginação

Foi tudo uma grande aventura.

 

Em tempo…

Dia 10

by Lequinho Maniezo

Esse crânio cheio Orfeu

De luz da manhã, ou

Fel, ou pó, dou pus meu

Aberto e azul do céu

Hidrogênio rompeu

Incolor, ingênuo

 

Brincou no chão intenso

O céu ajoelhou, só,

Imenso, entregue

O cheiro de outubro

Foi desfeito, penso

Acabou? Me cegue.

 

Sem lira no caminho

Ela me cala a ira

Com pregos ermos na

Oliveira da praia

Em termos técnicos

Deus! Caio, sonho com ecos

 

Orfeu, é ele ou eu?

Respiro pelo peito

Uma lembrança inciso

Um sorriso torto, um feito

Um sorriso torto, era seu

Sorrio torto, desfeito, cego

 

Fui pego! Pequei! E

Ainda peco, na

Praça, maldito e lerdo

Soldado raso erguei

A derrota certa

A paz entre os vulcões

 

 

 

Explodir, explodir

Explodir, explodir

Explodir, explodir

Explodir, explodir

Explodir, explodir

Explodir, explodir

Socorro esta fora de moda

by Lequinho Maniezo

Socorro é coisa fora de moda,

Não olhe pra cima pois só há poeira,

Não olhe pra baixo, pois o bastão vem de trás

Acerta a nuca, as geleiras que sobraram

Escorrendo em dobras que eu não sabia ter.

 

Uma chuva que vem com o calor,

Trazendo o delírio eufórico do pólen

De planta em planta, de pó em pó

Viemos e voltaremos

Na ilha gigante de Pathos.

 

“Um pálido ponto azul” não passa de uma alergia

Uma mosca cercando o corpo dum rato

Aparentemente admirou a todos!

Nossa maior lição de humildade,

Vai ser aprender a ter soberba.

 

Tudo tão engraçado… que me deu sono

Trabalhando tanto em ócio

Que até esqueço, mudar as coisas é para os ocupados

Pra mim só resta falar sobre

Minha experiência de causa com o café da tarde

 

tanta gente brava batendo boca no microfone

cabeça no teclado

ponto no serviço

ponta na sacada

ponto para o time… que time?

 

 

 

Passou-se um dia dos sete e tudo está normal agora

O relógio das 23 tem o calendário

Que marca o dia da ira

Que coincidência!

É o dia que chegam minhas entregas dos correios.

 

Tanta coisa bonita, tantas cores reveladas pela luz

Luzes da lanterna provam que não foi ela

Ainda assim, vão pelas cores

E numa burrice sem tamanho

Todos vem o mundo como moradores da micronésia.

Agora.

by Lequinho Maniezo

O eterno agora

“Acontece…”

Não temos tempo

Nem um que se perca

Simplesmente

 

Aconteceu

E vai desacontecer eternamente

Agora

Num silencio orquestrado, escrito

E tocado num tambor

 

Descrito por cada um

“Isso não prova nada”

Imaterial e improvável

Tão, tão perto

Vão

 

Para nunca mais voltar

Sem lembrar que nunca

Não tem prazo para cumprir

Nem plateia

Só certeza

E duvida.

Aporia.

by Lequinho Maniezo

30 mg disso, 60 daquilo
Me de anestesia
Tenho a forca preparada pra mim
Pancadas e pancadas na cabeça
Bem antes do café da manhã

Sabia uma oração muito bonita
Uma de mentira
Importa? Claro que importa, é verdade
Coisa que quero acreditar
Importa
De onde venho isso tem nome
Ingratidão
O sapo foi esmagado debaixo da roda de um carro.

Quero que a sua verdade seja mentira
Que a dele seja verdade e que a sua também
Negatividade que eu não me lembro
Quando eu for -1, como sentirei?
30 daquilo, 60 disso.
Um faqueiro na cozinha, bem quando esta tudo quieto.

Eu não vou ouvir os gritos, não vou sentir a terra
Por estar preocupado com o Eu, sendo que não existo.
Anão, menos ainda, menos que menos
-1, numa banheira cheia d’agua e comprimidos.
Comprimido num corpo.
O vácuo não é o nada, um nada absoluto
Respirando em eterna agonia, com calor de um verão pesado
Tenho sinusite.
E é possível que não corra a maratona
E esteja treinando para a maratona que não vem nunca.

Talvez eu queira me adiantar e chegar ao estádio antes da hora
Não ficar pros créditos.
Não ficar pra nada.
No silencio antes do café da manhã.