A Boca

Categoria: LKS

D I A N O R M A L

by Lucas Gomes

Uma sexta-feira qualquer. O sol estala, o banco do ônibus faz a temperatura ser maior do que o normal. Dizem que vamos para o inferno se cometermos pecados. Ouço disparos, o inferno deve ser no próximo ponto. Mas, aquele ainda não é o meu. São duas crianças para criar, um barraco na parte baixa de uma favela na cidade maravilhosa. Ouço mais disparos. Eu não tenho dinheiro pra essa maravilha toda, mas pras minhas crianças verem eu preciso trabalhar. Eu não quero que meus filhos sejam playboys, mas quero que eles tenham uma vida melhor que a minha, já diria BK. O sol não dá descanso. Hoje elas não foram pra escola, as crianças da escola particular também não. Todas sem aulas, mas as minhas sem educação e dinheiro. O dinheiro é pra comer. Ouço mais disparos, até o final do dia não sei se vou viver. Mas tenho que ir pro trabalho, ficar sem dinheiro é de fuder, tenho que encarar a guerra, senão meus filhos vão morrer. Mais um dia normal, é só uma sexta-feira qualquer.

1. Treinamento

by Lucas Gomes

Olhos para o alto, azul e sol. Azul e só. Mas tem um carneirinho ali, ou seria um algodão? Um, dois, três, sinal fechado, um dois três, coração bate mais rápido. Não pisa no preto, não pisa na divisão, não pisa na rachadura. Uma buzina, um apito, um motor, dois motores, três, quatro, mil, sinal fechado, silêncio a frente. Ao lado, uma buzina, um apito, um motor, dois motores, três, quatro, mil.

Esquina que te vi passar, esquina tua que eu quero estar.

Música: um pouco de blues e samba, com reggae e soul, misturando tudo. Quantas músicas eu vou demorar para chegar? O carneirinho anda, anda não, voa. O azul é de um tom incrível, mas olhar para cima faz os olhinhos fecharem. Quantos anos de azar por pisar na rachadura? O sinal fica verde, depois amarelo, depois vermelho, e tem um bonequinho verde, e uma mão vermelha que pisca.

Quantas ruas eu vou ter que atravessar até você chegar?

Paraíso

by Lucas Gomes

O que é o paraíso? Uma pergunta sem respostas, apenas com suposições. Imagine um lugar branco, nuvens e paz. Isso é a idealização unânime sobre o que é o paraíso, mas alguém já viu o paraíso? Suponho que seja uma tarde ensolarada, aonde o relevo e suas curvas lembram a mais bela das moças, enquanto o sol invade a calçada e o batuque de algum instrumento rústico encanta o povo que ri. O meu paraíso é bairrista, acho a minha grama melhor que a do vizinho. Mas ele não é o único. Iremos ao céus quando morrer como bons cristãos, ou ressurgiremos em outras gerações? Seremos apenas um produto com data de validade indefinida que, com o fim da vida, apenas se decompõe? Nunca saberei responder, o quando souber, será tarde demais. O paraíso pode estar ao seu lado, e pode ser eterno. Talvez nós não saibamos, mais um sábio já disse que o eterno as vezes dura apenas um segundo. Podemos ter o paraíso nas mãos e não perceber, mas podemos estar em paraíso mesmo sem saber do que se trata. É apenas uma interpretação da felicidade.

Negócio Fechado

by Lucas Gomes

Eu vou roubar aquele velho navio. Deve ser fácil conduzir um navio. Eu não sei nadar, devem haver boias. Eu vou até o cais, espero os guardas se distraírem com a noite fria, entro no navio, não terá uma alma viva. Mas se as almas que já passaram o plano me denunciarem? Elas também não devem apoiar o capitão. Eu vim daquele navio. Eu não sabia nadar, e se ele afundasse? O capitão era experiente, não deixaria. As pessoas aplaudiam o capitão, era uma lenda. O capitão me acertou com um chicote uma vez. “Negro sujo” ele dizia. Ele deve estar certo, ele é o condutor do navio. Ele não bate nos brancos. Deve ser fácil conduzir o navio. Eu deveria esperar mais um pouco, aprender a nadar pelo menos. Não há tempo, se eu ficar, a próxima chicotada é pela manhã. Melhor apanhar do que morrer? Ser um livre morto ou um escravo vivo? Eu vou roubar aquele velho navio.

Entre o céu e o inferno

by Lucas Gomes

Um vento frio sopra do oeste. Estar no topo do mundo, sentado sobre um parapeito, vendo a cidade dormir e acordar, sem nenhum tipo de apoio, é a hora propícia para ir ao chão. Metros e mais metros entre o voo do céu ao inferno, um mergulho entre o asfalto, o vento que sopra agora é quente. Um bar quente, com Blood on the Tracks tocando na íntegra. Uma lágrima caía dos olhos do demônio, esse disco acaba com qualquer  dos corações apaixonados. Por que estaria chorando a criatura mais nefasta da história? Ele estava triste, lembrando daquela que tinha deixado em outro plano, antes de ficar preso naquele velho e quente bar. Deu a mim a permissão de subir mais uma vez, ficar entre o céu e o inferno, porque no final é tudo sobre ela, e a história pode ser reescrita.

Venda sua alma

by Lucas Gomes

Era manhã, o sol já estava forte e havia uma desconexão entre o corpo e alma. O corpo estava parado sobre as pedras enquanto a água do mar batia próximo a seus pés. A alma flutuava em várias dimensões, observava o balanço das águas, o cachorro brincando na areia, algumas pessoas relaxando com alguns baseados. O olhar perdido demonstrava as dúvidas sobre o mundo, até onde podemos chegar, se avançar é retroceder ou se as pessoas realmente são capazes de mudar. A Terra é um planeta, mas dentro dele há vários mundos, no qual você pode mudá-los ou apenas vender sua alma. Mais um ou dois cigarros, é hora de pegar o ônibus..

Vinte e sete minutos

by Lucas Gomes

Vinte e sete minutos de um novo dia, o décimo terceiro de setembro, chove e faz frio no litoral. Os pensamentos voam, e o questionamento sobre o que é amor surge. Afinal, o que é? A primeira pessoa a utilizar essa palavra poderia explicar como encontrou uma palavra para uma mistura de sentimentos, se estivesse viva, vale ressaltar. Acredito que o amor seja como um texto do Lequinho, nós não entendemos (ou entendemos), mas ele tem um início e um final, mas sempre esperamos ele de novo. São trinta e um minutos de um novo dia, meus devaneios continuam…

O número um.

by Lucas Gomes

Todos os dias você acorda com um propósito. Algo que você quer fazer, algo que você não irá fazer, algo que você tem que fazer, não há dias sem propósito. As vezes devemos encarar situações que não estamos ou nunca nos preparamos, como uma prova que deveríamos nos preparar mais nosso cérebro pediu mais cinco minutos na cama ou mais um copo na noite. Como você conseguiria superar esses problemas? Isso não é um texto de auto-ajuda.

E se um dia você acordar como um chefe de estado, ou receber a notícia que um bebê está a caminho, e ele é seu? Você pode ser o melhor pai do mundo e um presidente aclamado, mas você está preparado para ser esse número um? Cristiano Ronaldo? Treina como uma máquina. Kobe Bryant? Treina como uma máquina. Você vai cair, a vida sempre ganha, mas quando você vence a vida, você lutou por isso. Você quer ser o número um? Todos queremos. Você está preparado para ser o número um?

Pensamento racional

by Lucas Gomes

Sexta feira da paixão. O metrô na minha cidade subiu para 3,70 R$ uma semana depois de um vagão inteiro ser assaltado. Batem em homossexuais. Crianças cheiram crack no meio da rua. Assassinaram um menino no alemão, dizem ser policiais. Julgam uma pessoa de criminosa, pecadora porque fuma maconha, mas fica bêbado e chama mulher de piranha por ficar com muitos caras. Ainda existe direita e esquerda e nada de bem comum. Há gente sem ter o que comer. Pretos e brancos ainda batalham para ver quem é mais preconceituoso. Atentado terrorista no Oriente Médio. Pessoa se suicida, derrubando um avião com cento e cinquenta pessoas. Você pode cultuar a Deus, mas não a Iemanjá ou Buda. Impeachment. A Palestina ainda não é um país reconhecido. O Estado Islâmico mata estrangeiros. A paz está longe, mas a única coisa que você pensa hoje é não comer carne para não ir ao inferno. Sexta feira da paixão.