A Boca

Sobre tudo num nada.

Agora.

by Lequinho Maniezo

O eterno agora

“Acontece…”

Não temos tempo

Nem um que se perca

Simplesmente

 

Aconteceu

E vai desacontecer eternamente

Agora

Num silencio orquestrado, escrito

E tocado num tambor

 

Descrito por cada um

“Isso não prova nada”

Imaterial e improvável

Tão, tão perto

Vão

 

Para nunca mais voltar

Sem lembrar que nunca

Não tem prazo para cumprir

Nem plateia

Só certeza

E duvida.

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15:19

by Lequinho Maniezo

15:19

CLIQUE E ABRA.

Aporia.

by Lequinho Maniezo

30 mg disso, 60 daquilo
Me de anestesia
Tenho a forca preparada pra mim
Pancadas e pancadas na cabeça
Bem antes do café da manhã

Sabia uma oração muito bonita
Uma de mentira
Importa? Claro que importa, é verdade
Coisa que quero acreditar
Importa
De onde venho isso tem nome
Ingratidão
O sapo foi esmagado debaixo da roda de um carro.

Quero que a sua verdade seja mentira
Que a dele seja verdade e que a sua também
Negatividade que eu não me lembro
Quando eu for -1, como sentirei?
30 daquilo, 60 disso.
Um faqueiro na cozinha, bem quando esta tudo quieto.

Eu não vou ouvir os gritos, não vou sentir a terra
Por estar preocupado com o Eu, sendo que não existo.
Anão, menos ainda, menos que menos
-1, numa banheira cheia d’agua e comprimidos.
Comprimido num corpo.
O vácuo não é o nada, um nada absoluto
Respirando em eterna agonia, com calor de um verão pesado
Tenho sinusite.
E é possível que não corra a maratona
E esteja treinando para a maratona que não vem nunca.

Talvez eu queira me adiantar e chegar ao estádio antes da hora
Não ficar pros créditos.
Não ficar pra nada.
No silencio antes do café da manhã.

Contra-Teoria

by Lequinho Maniezo

contra-teoria

 

Eu disse algo que estava errado como sempre esteve. Estive mortalmente errado por simplesmente ser e durante umas três centenas de dias e mais alguns agregados fiquei pensando sobre a parede invisível que antes não existia na minha cabeça; sem os olhos viram uma escuridão mais escura que tudo que não tem luz, entraram na roda do tempo e lentamente o dia raiou num domingo.

Quem disse que não muda? Tudo mudou, até a burrice de palavras complicadas mudou, a grosseria das sentenças simples foi afiada em público, tudo agora é em público. Existe hora e lugar pra tudo, depende de quem escolhe e quem tem mais força. Uma queda de braço entre duas mãos do mesmo corpo, olhos vesgos numa cara que não guia o próprio nariz, um bicho que tropeça e resmunga, voltando a algum lugar que não sabe de onde veio. Pelo menos tem mais fogos, a loucura dos cachorros, pobres.  Tinha uma caneta em cima da mesa, junto com um copo d’agua e um saquinho de pó refinado, açúcar. Eu digo sim no altar para todo mundo ver! Eu me declaro e digo sim! Pela minha família, pelos meus pais eu digo sim! Enquanto isso metade da igreja se levanta, cansada de se calar para sempre, a outra metade reprova e manda se calar porque quem vai falar são eles (eu já não entendo mais nada)! Eu nem queria mesmo.

Disseram que ia ser eterno, que o ano que viria na verdade duplicaria o nosso ano, piorando as tragédias e ignorando o bom humor, que talvez não seja bom, não seja humor, entretanto não se preocupe, alguém vai decidir isso por você. Quanto ao eterno? Ainda não conheci e espero que demore, mesmo que chegue num segundo, que seja com batedores berrando a chegada de um exército imparável. O dia terminou, mas talvez a lua que redunda seja a mais brilhante de todas, com são Jorge em cima, o Dragão em baixo e todos nós em volta. Enquanto isso ainda está escuro.

Tudo está novo: é uma nova velhice, uma nova vida, um novo emprego, uma nova briga, é um belo prato novo. São problemas recém-nascidos que talvez já tenham ido em outras cabeças. Perdão, por um ano, perdão, não falaram nada, ficaram sentados, cada qual em seu lugar, vivendo sua vida. Antes se falavam de pé! Se é que ainda fia-se em tal costume. É um novo texto de final de ano, dizendo as mesmas coisas, só que com opiniões diferentes.

Ainda assim, depois que se esconder a lua dão as caras nuvens, o vento sopra e o céu… o céu é azul de metileno.

Rodoviária

by Lequinho Maniezo

 

Rodoviária

 

 

 

 

João, 27, desempregado. Parado no meio da rodoviária via seu ônibus de número 97 chegar ao portão 8 na noite de sábado da estação localizada em Prefeito Saladino. Saladino volta aos tempos da republica velha, o pais uma bagunça e João nem pensando em encarnar e muito menos num corpo parado dentro de uma rodoviária esperando um ônibus pra Maringá. 27, um número cabalístico que marca a idade de morte de muita gente famosa e milhões de pessoas desconhecidas, essas não importam, não importa seu vomito, seu suicídio, sua overdose, seu cachorro doente que, a caminho do veterinário, soltou-se da coleira e foi perseguido por um corpo perseguido por um carro sem freio perseguido eternamente pela culpa daquela morte; a culpa eram dos 27 anos. Maringá era onde morava sua mãe, sua mãe era pequena e nunca pensara em ninguém que morreu aos 27 nem sequer sabia quem foi Saladino, muito menos que havia uma rodoviária na qual se para e que esta tinha tal nome; ela sabia da parada e sabia de seu filho, isso bastava. Você é um vagabundo, eu te odeio mulher, se for para ser assim vai ser fora da minha casa! Desculpas, faz tanto tempo…eu te perdoo filho, vem para casa. 10 anos. Trabalhou numa serralheria onde passava o expediente no bar, trabalhou num bar onde passava o expediente consumindo a matéria do negócio (regra no 1 do manual “O que não fazer: Vendas”) e finalmente numa biblioteca onde, por não consumir a matéria nem passar o expediente na mesma, acabou na rodoviária supracitada. Tereza estava sentada no banco da frente esperando o ônibus que ia pra Bahia, tinha passado no vestibular e rumava à federal, cinema; Tereza gostava de tomar tequila e jogar sua bola vermelha contra a parede nos dias de tédio que encontrou nas longas férias de dezembro. João as vezes, no meio da noite, descia até o quintal e abraçava seu cachorro, tentando fugir do medo da morte que o assolava aos pontapés e, quando o cão não aguentava mais, subia de volta ao quarto para dormir deixando o cão também assim.

 

O motorista do ônibus se chamava Osvaldo, torcia para o Corinthians e durante 20 anos sofreu com crises de ansiedades periódicas até que foi em um médico indiano que lhe reorganizou a rotina. 62, pratica ioga e não come mais carne a um quarto do tempo, carrega na carteira uma foto da sua filha e do filho falecido num acidente de avião que ocorreu no exterior; nunca abjurou os ônibus, pilotando ou não. João comia mal, tinha engordado 10 Kg no último mês, comia salgados demais e raramente praticava exercícios, mas ao menos os imaginava, fato que lhe rendia, de certo, a perda de certas calorias. Ele abre a jaqueta e levanta as mãos um pouco acima da cintura. Otavio estava de fones de ouvido e lia no celular a morte de 50 pessoas numa explosão enquanto ouvia uma entrevista com o centro avante de sua equipe. Os corpos foram identificados conforme o professor mandou e graças a Deus os 3 pontos vieram com o bom trabalho da equipe de bombeiros que fez a retirada dos mortos num ótimo jogo, bem puxado. Otavio não pegaria o ônibus pra Maringá, de fato estava um dia adiantado na ida e esperava a chegada do transporte para Rio Claro no portão 6.

João ainda espera o plano de Deus na sua vida, todo plano requer tempo e está sujeito a falhas pois a pratica a tudo bagunça; Contudo esperava firme e contente na medida do possível.  Certa vez um homem se achegou e lhe disse “O plano de Deus é a música” e então tentou ser musico: não conseguiu. “O plano de Deus é que você pregue”, João travava em público e, na frente de todos, vomitou, sendo repreendido por um muito bem treinado corpo de presbíteros que identificaram o demônio na mesma hora, coisas de familiaridade. “O plano de Deus…” e então ele percebeu que não havia um plano, a vida não aceita planos, nem um Deus. Mesmo assim, deve existir algo pelo que se valha a pena morrer. Ana beijou a cruz antes de guardá-la na bolsa e trocar o terço que segurava pelas passagens a apresentar. Antes de nascer um homem veio a seus pais e lhes deu todas suas características, contou-lhes um futuro que se cumpriu e um presente que, mesmo não sabendo, existia. Deus havia provido o cordeiro e o bode expiatório para tudo! A vida pobre foi levada por outro, os maus tratos paternos foram transferidos para outra menina, a gravidez prematura veio para a prima, o câncer no útero da própria mãe, a bala perdida para o ex-namorado, o dinheiro todo para o pastor; nunca perdeu a fé, o plano de Deus se cumpriu em sua vida, que seguiria pra Maringá assim que abrissem o portão. E então os portões se abriram, um homem atrás do vidro puxou a trava e fez correr as portas, um a um se aglomeraram com suas malas em frente ao portão; dentro de suas extensões levavam o que consideravam parte de si: um crucifixo, um quadro, uma roupa de couro e uma bola vermelha, levavam facas e levavam discos de vinil, uma coleção de tampas e uma garrafa de Cantina escondida entre os lençóis sujos. João colocou a mão abaixo da jaqueta e sentiu o pino frio em seu dedo. Se apaixonou poucas vezes, quando fazia não falava para ninguém, nem mesmo para o alvo do afeto, muito menos para essa! Reprimiu uma a uma todas as suas atrações, fosse por homens ou por mulheres, faltava-lhe um impulso visceral para fazer sabida sua vontade, faltava coragem acima de tudo. Sentia-se feio, não ligava, a feiura lhe caia bem nas noites de terça feira, naquelas noites ele amava ser feio para poder ficar em paz com suas cartas de baralho em frente à TV; nos outros dias era infeliz.

Fernando chegou a rodoviária sem ligar as sirenes, estava perto do fim de seu turno. Sua sogra chega num ônibus mais tarde, classe econômica, levanta a cada parada para os pés não incharem; mesmo assim, eles incham. Fernando enxerga o horizonte com os olhos, mesmo que os prédios o tapem e a poluição borre os traços, Antes de chegar ao último degrau da escada que nivela a todos ele já havia observado as pessoas, em sua cabeça julgou e apurou os fatos, ponderou um pouco, pois em votação ao jure que mora dentro de sua cabeça. Resolveu deixar a arma enferrujada no coldre e tirar a boina. Com a perda de sua mulher e a iminente chegada da sogra não lhe sobrara muito tempo para pensar na menina pela qual se apaixonou no colegial; pensava todos os dias nas oportunidades perdidas, enquanto tomava café sozinho. Na viatura rebobinava os vídeos de todas as vezes que saíram juntos e ele não fez nada, em alguns tiroteios enquanto a pistola berrava ele conversava com ela, falavam sobre o novo filme do Robocop (ele odiou). Foi sua companheira sempre, no casamento, na noite de núpcias, nos jantares de família, no acidente de carro e no pós-trauma; não se viam há 20 anos. João então pensou nos corpos espalhados pelo chão e num meteoro destruindo o teto daquela rodoviária, ouvia os gritos dentro de sua cabeça e já sabia exatamente para onde correr ou como gostaria de ser retratado na TV quando achassem seu corpo, provavelmente iria aparecer nos sensacionalistas uma foto de seu RG e ao fim falariam mais sobre eles mesmo do que sobre todo o resto. Então soltou o pino, não valeria a pena, não havia nem um pino, nem um meteoro, só a viagem, o retorno a gênese de tudo, voltaria a usar fraldas, geriátrico infantil, para sempre ao lado dela até o fim de ambos. Remoeu tudo aquilo numa fração de segundos enquanto a luz da lanchonete atrás de si apagava e o Ônibus chegava à estação, seu número no letreiro de luzes vermelhas, a logomarca gigante manchada de poeira. Uma a uma as malas iam para dentro, as malas carregando coisas inúteis que poderiam acabar agora, bastaria um sinal. O sinal não veio, a promessa não veio, veio a sogra e foi-se João junto com todos os outros. Fosse vida real todos morreriam e isso estaria nos noticiários; posto que é ficção estão todos vivos e bem, viajando num ônibus para lugar nenhum.

Pagina 1

by Lequinho Maniezo

Acordei cansado e confuso

Metade da minha alma botada pra fora

Por não ser aceita

Tem um louco na minha tela e tantos outros

Tantos, tantos outros

Olhando pra tela

 

Se eu acordar chorando avisem

Avisem metade da minha alma que estou bem e é por ela

O sol levanta e tem um louco na minha tela

Os humanos falam sem língua, seus dedos sussurram

Vira um coro de gente muda

Que não muda nunca

 

Já é dia de novo, um cara falou pra mim na TV

Não entendi nada

Uma voz falou no trem

Ainda não entendo

Acho melhor o silencio

É melhor ficar como estava

 

Fui assistir ao concerto e lembrei-me de quem nunca vi

E vendo, consegui ouvir e vi

O que não via, 2 anos atrás

E fiquei pasmo e me maravilhei novamente

Agora é segunda de novo

É segunda

 

Esta de noite

E metade da minha alma teme por metade da minha alma

Que chora longe e dentro de casa

Não chore, metade

Pois inteira que é (sem ser eu)

Sobra.

Um poema rápido

by Lequinho Maniezo

Acordado não sonho por estar pensando em morrer dormindo

E quando durmo não penso

E não durmo por ter medo da morte e dos sonhos

Não obstante perco tempo

E escrevo rápido vivendo

Com sono

As duas escada do Tamanduatei

by Lequinho Maniezo

Desembarque pelo lado esquerdo do trem

Está tudo escuro. A nossa frente somente as duas escadas do Tamanduateí e todo o povo apressado demais para ouvir os passos de seu salto alto e inédito bater ao chão. Passos a passo vamos de mãos dadas até o primeiro degrau, um pouco mais para o lado, um pouco mais para o outro, vamos sempre de mãos dadas. Ao lado do rolar dos degraus automáticos as janelas circulares dão passagem a luz do sol pálido, faz frio e ela ascende um cigarro censurado pelo guarda amarelo ao topo da primeira escada. Esta tudo escuro, mas continuamos juntos.

A bolsa foi presente de 3 anos, couro falso por falta de dinheiro e excesso de piedade; dentro do bolso de fora aquela foto sua com cara de criança inocente e charmosa. No dedo a aliança que eu nunca tirei, o clichê do clichê, totalmente normativos e totalmente padrões chegamos a segunda escada do Tamanduateí e num sobressalto sinto o solavanco dos motores que nos levam até a plataforma. Os bancos ficam no extremo e ali sinto sua vaga companhia se fazer nos poucos centímetros ocupados pelo seu corpo esguio. Não me olha e nem me cita, me rejeitou o dia inteiro, nem ao menos falou comigo e quando vê alguém, larga minha mão e voa até ali, como um pássaro que busca uma minhoca no gramado de uma casa bem pequena. Um mundo bem pequeno. Uma cicatriz pequeníssima atrás do pescoço e no lóbulo frontal da alma, uma pancada de sabonete vinda de uma meia feita de palavras.

Esse trem tem como destino…

Lugar algum, estávamos indo ao asilo onde internei mamãe, mas vejo que nosso destino é lugar algum; por que tudo ficou tão quieto de repente? O metro chega irrompendo nuvens baixas com sua estrutura metálica, uma bala disparada por uma arma gigante e invisível que percorre o sistema nervoso inteiro daquele corpo alvejado do estado de São Paulo. Não fere pontos vitais e nem alcança órgãos escondidos. Um papel com um pedido que não consigo ler chega ao colo e logo é devolvido, “Deus te abençoe” e logo ganhamos estações, vários segundos dentro dos minutos que não consigo mais medir com meus braços. Ela está ali e conversa consigo sobre a janta por fazer naquela noite em que não comi, sobre as cicatrizes e sobre a ligação as 4 da manhã. Eu a via com outros olhos, sátiro, sempre um sátiro como diria o outro, apesar de não ser minha filha, mas sim um personagem próximo na cena de nosso ato sincero. O ar condicionado faz redemoinhos discretos em volta de mim, contudo, não sinto o frio que me causava ao voltar do trabalho, nem a raiva dos dias de maio, somente uma tontura leve pelo movimento brusco. Movimentos bruscos de mais me trouxeram até aqui, havia a luz de um computador, o calor que subiu pela minha nuca e a escuridão ao redor da luz definitiva. Ao olhar para ela do outro lado da mesa de jantar ao lado desta ao meu lado, senti a culpa de não ter agido antes e pedi perdão pelo que pensava em não fazer nunca.

E então o metro parou, num taxi estofado de camurça vagamos até uma casa de repouso cercada por ferrugem e enfermeiros. Num taxi branco fui até a casa dela numa tarde de folga não divulgada, a janta estava sendo feita; entrei pela porta e fui ao seu quarto, os pratos estavam postos; comemos, o prato ficou no micro-ondas até acabar uma reunião tardia. Eu sempre a amei em todos os meus atos, milhões de meias compostas por palavras, a única marca, a marca de nascença, já era nossa e não só dela, ficamos juntos no ultimo escuro. No escuro eu levantei e olhei para a velha senhora que vinha pelos pés redondos de uma cadeira de rodas. Minha mãe, quieta como sempre, “mulher de verdade” nas palavras de meu pai. Minha inspiração foi meu pai e ela foi meu alvo desde sempre, das recepções quando ele chegava das reuniões, do silencio após o gongo do pugilista, da sombra da cabeça baixa.

Elas se olham, veja pequeno menino, veja o olhar delas e leia os 10 versos que formam esse universo ultrarrealista; te darei, por cinco segundos, olhos para ver as letras que saem e grudam nas paredes da retina. Alivio! Não pode ser, o que não me contaram que eu não sabia? Sempre juntos, ela e eu, ela e ele. Silencio garoto, seus olhos voltaram a urna, assim como todo o resto e nem todos os presentes à pechincha poderão remediar os momentos em que tratou-a como o próprio Gomer Pyle. Pendure a farda sargento, daqui você não passa e o banheiro daquela cena virou quarto, a castração religiosa foi psicológica e suas meias palavras traduzem o todo que se completou nessa fração de olhares. Bem-vindo de volta, “vá para o quarto e tranque a porta”, a tremedeira vai passar logo, não se assuste, eu e você estaremos de mãos dadas até você aprender a caminhar, ou assim seria, mas você tolheu as pernas, você podou a arvore araucária num bonsai de seu jardim, a mesa de jantar está posta e o quarto aberto, mas você nunca sairá da mesa nem deitara na cama. Seu prêmio? Não saber nunca a única coisa que lhe era de direito, até uma barata abaixo de um chinelo sabe o que o maior filosofo não sabe, você não sabe, silencio pequeno, silencio, ouça o alivio que a sua falta traz. Sem mais pancadas na sola do pé invisível, sem mais violência, sua esposa, a amiga e sua mãe estão livres, sua urna é fria e nem o caixão maculou-se. Feche os olhos

Ela levanta e a fita se rebobina, o som agudo marca o desfazer da linha do tempo, passos para trás, duas, uma, térreo, trem, casa, quarto, luz, gatilho, conversa, telefone, cama, soco, sangue. Sua face atrás do vidro embaçado solta leve sorriso, seu ar arejado assopra entre os dentes e os pés se ajustam na ponta do salto.

Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma.

Poesia ausente

by Lequinho Maniezo

As paredes do meu quarto suam e se derretem no frio

Abstinência

Por debaixo das unhas do passado recente existe a sujeira do gesso

Arrancado com sangue do tempo instransponível

Que crescendo sua parede transborda de mim químicos indesejáveis

 

Já é segunda outra vez, há 41 semanas

Silencio paira entre a neblina em fila indiana

Silencio! Ouça o que fala o segundo entre a sineta do trem

E o pulo campeão olímpico, para os trilhos e as pedras.

Eu não te vejo mais desde que fechei os olhos

 

Sua quadrela desbotou e correu até mofar dentro

E na experiência alheia apareceu o voto opositor de culpa

Em que me fuzilavam caracteres perniciosos e não ditos

Mas alguém falou de brilho

De trem

De Deus

De Mariano

De profecia

 

Eu te vejo! disse ele

e que alguém mais via

Veja! Nosso calor não alcançou o chão onde os outros dormiam

invisível

 

As luzes do estádio ascenderam do chão e focaram no centro

Num lance subiu aos céus um globo de vidro iluminado pelo astro

E era ali mais uma pessoa na linha azul

Ao invés de ser mais um lugar ocupado

 

Silencio sobrou

Já faz 41 semanas

1. Treinamento

by Lucas Gomes

Olhos para o alto, azul e sol. Azul e só. Mas tem um carneirinho ali, ou seria um algodão? Um, dois, três, sinal fechado, um dois três, coração bate mais rápido. Não pisa no preto, não pisa na divisão, não pisa na rachadura. Uma buzina, um apito, um motor, dois motores, três, quatro, mil, sinal fechado, silêncio a frente. Ao lado, uma buzina, um apito, um motor, dois motores, três, quatro, mil.

Esquina que te vi passar, esquina tua que eu quero estar.

Música: um pouco de blues e samba, com reggae e soul, misturando tudo. Quantas músicas eu vou demorar para chegar? O carneirinho anda, anda não, voa. O azul é de um tom incrível, mas olhar para cima faz os olhinhos fecharem. Quantos anos de azar por pisar na rachadura? O sinal fica verde, depois amarelo, depois vermelho, e tem um bonequinho verde, e uma mão vermelha que pisca.

Quantas ruas eu vou ter que atravessar até você chegar?